Uma pessoa investe R$ 10 mil em um título do Tesouro Direto acreditando que verá o saldo crescer um pouco todos os dias. Algumas semanas depois, abre o aplicativo e encontra R$ 9.850. A primeira reação costuma ser pensar que houve algum erro ou que a renda fixa não era tão segura quanto parecia.

Essa queda pode ser consequência da marcação a mercado. O mecanismo atualiza o preço do título de acordo com a taxa exigida pelo mercado naquele momento. Se o investidor decidir vender antes do vencimento, é esse preço atualizado — e não uma simples projeção da taxa contratada — que será considerado.

A marcação não é uma multa, uma cobrança escondida ou uma retirada feita pela corretora. Ela mostra quanto outro investidor aceitaria pagar hoje por um fluxo de dinheiro que será recebido no futuro.

Para entender por que o preço pode cair, é necessário observar a relação inversa entre juros e valor do título: quando as taxas de mercado sobem, títulos antigos geralmente perdem preço; quando as taxas caem, eles podem se valorizar.

Publicidade

Conteúdo educativo atualizado em agosto de 2026. Os exemplos são hipotéticos, utilizam cálculos simplificados e não representam recomendação de compra ou venda. Impostos, taxas, inflação, cupons e condições específicas de cada produto podem alterar o resultado.

A marcação a mercado responde quanto o título vale hoje

Um título de renda fixa representa uma obrigação do emissor. O investidor entrega dinheiro agora e recebe, conforme as condições contratadas, pagamentos futuros.

Esses pagamentos podem incluir apenas um valor no vencimento ou também juros periódicos. A remuneração pode ser prefixada, vinculada à inflação, relacionada ao CDI, à Selic ou definida por outra referência.

Quando o título é negociável antes do vencimento, ele precisa ter um preço de mercado. Esse preço considera o valor que ainda será pago, o prazo restante, as taxas de juros atuais, o risco do emissor, a liquidez e as condições de oferta e demanda.

O Portal do Investidor define a marcação a mercado como o ajuste diário do preço conforme as condições econômicas e as mudanças nas taxas de juros.

Isso significa que existem duas perguntas diferentes:

  • Quanto posso receber se mantiver o título conforme as condições até o vencimento?
  • Quanto receberia se vendesse o título hoje?

A primeira pergunta está ligada à rentabilidade contratada e à chamada marcação na curva. A segunda depende da marcação a mercado.

A marcação na curva projeta a evolução do investimento usando a taxa acordada na compra. Ela é útil para visualizar o caminho teórico até o vencimento, mas não representa necessariamente o valor disponível em uma venda antecipada.

A marcação a mercado utiliza as condições atuais de negociação. Por isso, pode mostrar um valor maior ou menor que a projeção na curva.

O cálculo que explica por que juros maiores derrubam o preço

Imagine um título hipotético que pagará exatamente R$ 1 mil daqui a cinco anos. Para simplificar, vamos ignorar impostos, taxas, inflação e pagamentos intermediários.

Se o mercado exige uma rentabilidade de 10% ao ano para esse título, ninguém pagaria R$ 1 mil hoje para receber os mesmos R$ 1 mil somente cinco anos depois. O preço atual precisa ser menor para que, crescendo à taxa de 10% ao ano, alcance R$ 1 mil no vencimento.

A conta simplificada é:

Preço atual = valor no vencimento ÷ (1 + taxa de mercado)prazo

Aplicando uma taxa de 10% ao ano:

Preço = R$ 1.000 ÷ (1,10)5 = aproximadamente R$ 620,92

Agora imagine que, pouco depois, títulos semelhantes passem a oferecer 12% ao ano. Um investidor novo poderia comprar um papel que paga mais. Para que o título antigo continue competitivo, seu preço precisa cair.

Preço com taxa de 12% = R$ 1.000 ÷ (1,12)5 = aproximadamente R$ 567,43

O pagamento no vencimento continua sendo R$ 1 mil no exemplo. O que mudou foi o preço que o mercado aceita pagar hoje.

Em relação ao preço calculado com taxa de 10%, a queda seria de aproximadamente 8,6%:

(R$ 567,43 ÷ R$ 620,92) − 1 = −8,6%

O movimento contrário também acontece. Se a taxa exigida pelo mercado cair para 8% ao ano:

Preço com taxa de 8% = R$ 1.000 ÷ (1,08)5 = aproximadamente R$ 680,58

Taxa exigida pelo mercado Preço aproximado do título Variação em relação à taxa de 10%
8% ao ano R$ 680,58 +9,6%
10% ao ano R$ 620,92 Preço de referência
12% ao ano R$ 567,43 −8,6%

O exemplo mostra a relação principal:

  • quando a taxa de mercado sobe, o preço do título cai;
  • quando a taxa de mercado cai, o preço do título sobe.

Na prática, os cálculos utilizados pelo Tesouro Direto são mais detalhados. Eles consideram dias úteis, características do título, fluxo de pagamentos, atualização por índices e demais regras de precificação. Ainda assim, a lógica econômica é a mesma.

Quanto maior o prazo, maior tende a ser a oscilação

No exemplo anterior, o pagamento estava a cinco anos de distância. Se o vencimento estivesse a apenas um ano, a mudança de 10% para 12% produziria um efeito menor.

Com um ano restante:

Preço a 10% = R$ 1.000 ÷ 1,10 = R$ 909,09

Preço a 12% = R$ 1.000 ÷ 1,12 = R$ 892,86

A queda seria de aproximadamente 1,8%, bem menor que os 8,6% do exemplo com cinco anos.

Isso acontece porque uma alteração na taxa será aplicada durante todo o prazo restante. Quanto mais distante estiver o pagamento, maior tende a ser o efeito acumulado.

Essa sensibilidade é frequentemente analisada por meio de uma medida chamada duration. Sem entrar em toda a matemática, ela ajuda a estimar quanto o preço pode reagir a mudanças nas taxas.

Em geral, apresentam maior sensibilidade:

  • títulos com vencimentos longos;
  • títulos que concentram o pagamento no final;
  • papéis com taxas contratadas menores;
  • títulos indexados à inflação com prazo muito distante;
  • produtos com pouca liquidez ou maior risco de crédito.

O prazo indicado no nome do investimento não é apenas uma data administrativa. Ele influencia diretamente a oscilação que o investidor pode enfrentar.

É por isso que escolher apenas a maior taxa disponível pode dar errado. Antes da rentabilidade, é necessário decidir quando o dinheiro será utilizado. O guia sobre como montar uma estratégia baseada em prazo, objetivo e risco aprofunda essa organização.

Prefixado, IPCA+ e Selic reagem de formas diferentes

Todos os títulos públicos negociados pelo Tesouro Direto possuem preço de mercado, mas a intensidade das oscilações varia.

Tesouro Prefixado

No Tesouro Prefixado, a taxa nominal é conhecida no momento da compra. Se o título for mantido até o vencimento e o Tesouro Nacional cumprir o pagamento, o investidor recebe a rentabilidade bruta correspondente às condições contratadas.

Antes do vencimento, porém, o preço reage às taxas prefixadas disponíveis no mercado. Se novos títulos passam a pagar mais, o título antigo perde atratividade e seu preço cai. Se as taxas novas diminuem, o papel adquirido anteriormente pode se valorizar.

O próprio Tesouro Direto explica que a venda antecipada acontece pelo preço vigente no mercado, não pela reprodução automática da taxa da compra.

Tesouro IPCA+

O Tesouro IPCA+ oferece variação da inflação acrescida de uma taxa real contratada. Muitas pessoas interpretam a proteção contra a inflação como ausência de oscilação, mas são características diferentes.

O valor nominal do título acompanha o IPCA, enquanto seu preço de negociação também responde à taxa real exigida pelo mercado.

Se o mercado passa a exigir IPCA mais 7% ao ano e o investidor possui um título comprado a IPCA mais 5%, o preço do papel antigo tende a cair. Se a taxa real do mercado recua, o título pode se valorizar.

Quanto mais distante o vencimento, maior pode ser essa sensibilidade. Títulos IPCA+ longos podem apresentar variações expressivas, apesar de continuarem sendo classificados como renda fixa.

Tesouro Selic

O Tesouro Selic acompanha a taxa básica e costuma apresentar sensibilidade menor às mudanças de juros. Por isso, é frequentemente considerado em objetivos de curto prazo e reservas.

Isso não significa valor absolutamente estável em todos os momentos. O título possui um pequeno componente prefixado, está sujeito ao preço de recompra e pode apresentar oscilações, principalmente em períodos de estresse no mercado.

A diferença é que a intensidade tende a ser muito menor que a observada em Prefixados e IPCA+ longos.

Também é importante separar liquidez de estabilidade. Um título pode ter recompra diária e, ainda assim, ser vendido por um preço inferior ao da compra. O artigo sobre liquidez nos investimentos explica essa diferença.

A marcação também aparece em títulos privados e fundos

A lógica não está restrita ao Tesouro Direto. Debêntures, CRIs, CRAs e determinados títulos bancários também podem ter seu valor atualizado conforme as condições do mercado.

Nos títulos privados, além dos juros básicos, entra o risco do emissor.

Imagine uma debênture que pague CDI mais 2% ao ano. Se a situação financeira da empresa piorar e o mercado passar a exigir CDI mais 5% para assumir aquele risco, o preço da debênture antiga tende a cair.

Nesse caso, a queda não reflete apenas uma mudança geral nas taxas. Pode representar uma percepção de maior risco de crédito ou dificuldade de encontrar compradores.

Oferta e demanda também importam. Um título com poucos compradores pode precisar ser negociado com desconto mesmo que o emissor continue realizando seus pagamentos.

Em alguns títulos bancários, a plataforma pode apresentar uma evolução próxima da curva contratada. Isso não garante que uma saída antecipada esteja disponível ou que acontecerá pelo valor mostrado. Alguns CDBs não permitem resgate antes do vencimento; outros dependem de condições definidas pela instituição.

A proteção do Fundo Garantidor de Créditos, quando aplicável, também não elimina a marcação a mercado. Ela possui produtos, limites e condições específicas e normalmente está relacionada à quebra ou intervenção da instituição, não à compensação de uma venda antecipada por preço menor.

Para comparar riscos e garantias, veja a análise sobre CDB ou Tesouro Direto.

Nos fundos de renda fixa, os ativos da carteira são avaliados e isso afeta o valor das cotas. Mesmo que o fundo carregue vários títulos, o cotista pode ver rentabilidade negativa em determinados períodos.

A situação é diferente de possuir diretamente um único papel e decidir levá-lo até o vencimento. O gestor do fundo compra, vende e ajusta a carteira, enquanto o investidor resgata suas cotas pelo valor calculado conforme as regras do fundo.

Levar até o vencimento reduz o problema, mas não elimina todos os riscos

Quando um título é mantido até o vencimento, as oscilações intermediárias deixam de determinar o preço de venda, porque não houve venda antecipada.

Em um Tesouro Prefixado, por exemplo, a rentabilidade bruta contratada tende a ser entregue no vencimento conforme as condições do produto. No Tesouro IPCA+, o resultado considera a inflação acumulada e a taxa real da compra.

Essa afirmação depende de algumas condições:

  • o emissor precisa cumprir o pagamento;
  • o investimento deve ser mantido até a data prevista;
  • o título não pode ser vendido antecipadamente;
  • impostos e custos precisam ser descontados do retorno bruto;
  • as regras do produto precisam ser respeitadas;
  • eventuais cupons devem ser considerados no fluxo de caixa.

Também existe custo de oportunidade. Se o investidor contratou 10% ao ano e títulos semelhantes passaram a pagar 14%, manter o papel evita realizar uma perda de mercado, mas significa continuar com uma taxa menor que a disponível para novos investimentos de risco comparável.

Por outro lado, vender o título antigo com desconto para comprar o novo não cria ganho automático. A taxa maior do novo investimento pode apenas compensar o preço menor recebido na venda. A comparação precisa considerar os dois lados, além de imposto e custos.

Em títulos privados, “esperar o vencimento” não resolve uma deterioração real do emissor. Se houver risco de inadimplência, renegociação ou recuperação judicial, a queda de preço pode sinalizar um problema diferente da oscilação normal dos juros.

Quando uma queda vira perda real

Uma cotação abaixo do preço de compra representa uma perda não realizada. Se o investidor vender naquele momento, o resultado passa a integrar efetivamente a operação.

Entretanto, dizer que “só existe prejuízo se vender” é incompleto. A queda pode revelar:

  • mudança relevante nas taxas de juros;
  • aumento do risco de crédito;
  • falta de compradores;
  • prazo inadequado ao objetivo;
  • custo de oportunidade maior;
  • mudança nas condições do emissor.

Antes de vender, procure responder:

  1. A queda ocorreu por mudança das taxas ou por problema do emissor?
  2. Qual era o objetivo original do investimento?
  3. O dinheiro será necessário antes do vencimento?
  4. Existe reserva separada para emergências?
  5. Qual será o valor líquido depois de imposto e custos?
  6. Onde o dinheiro será reinvestido?
  7. O novo investimento realmente melhora o plano ou apenas reage ao medo?

Também não é correto manter qualquer título apenas para evitar admitir uma perda. Se o objetivo mudou ou o risco do emissor aumentou, vender pode ser uma decisão racional. O ponto é decidir com base na análise, não apenas na cor vermelha do aplicativo.

O conteúdo sobre como avaliar os diferentes riscos de um investimento ajuda a separar volatilidade, crédito e liquidez.

Marcação a mercado também pode gerar ganhos antecipados

O mesmo mecanismo que derruba o preço quando as taxas sobem pode valorizá-lo quando as taxas caem.

Um investidor que comprou um título longo a uma taxa elevada pode encontrar, meses depois, um valor de mercado significativamente maior caso as taxas recuem.

Nesse momento, ele possui duas alternativas: manter o investimento seguindo o planejamento original ou vender antecipadamente e realizar a valorização.

A venda não significa necessariamente que o investidor “ganhou mais que a taxa contratada” de forma definitiva. Será necessário decidir onde o dinheiro será reinvestido, provavelmente em um mercado que agora oferece taxas menores.

Tentar ganhar com movimentos de juros é uma estratégia ativa e envolve risco. As expectativas podem não se confirmar, as taxas podem continuar subindo e títulos longos podem sofrer quedas relevantes.

Marcação a mercado não deve ser apresentada como oportunidade fácil de lucro. Ela pode beneficiar ou prejudicar uma venda antecipada e exige tolerância à oscilação, conhecimento e prazo.

Como reduzir a chance de precisar vender no pior momento

A melhor proteção não é tentar prever com exatidão a próxima decisão do Banco Central. É combinar o vencimento dos investimentos com as datas em que o dinheiro será usado.

Dinheiro para uma despesa daqui a seis meses não deveria depender da venda favorável de um título que vence em quinze anos. Mesmo que a taxa longa pareça atraente, o prazo cria um risco desnecessário para aquele objetivo.

Uma organização possível é separar:

  • recursos para emergências em produtos de alta liquidez e baixa oscilação;
  • objetivos de curto prazo em investimentos com vencimentos próximos às datas de uso;
  • objetivos de médio prazo em produtos compatíveis com alguma variação;
  • recursos de longo prazo em títulos que possam ser mantidos durante ciclos de juros.

Mesmo o produto utilizado para reserva precisa ser avaliado por risco, liquidez, horário de resgate, prazo de liquidação, tributação e estabilidade. Veja também como calcular e organizar uma reserva de emergência.

Antes de comprar um título, procure no aplicativo ou documento do produto:

  • data de vencimento;
  • forma de remuneração;
  • possibilidade de venda antecipada;
  • histórico de oscilação;
  • risco do emissor;
  • existência de garantia;
  • impostos e taxas;
  • prazo para o dinheiro chegar à conta.

A taxa anunciada é apenas uma parte da decisão. Prazo, preço e risco determinam se essa rentabilidade é compatível com o objetivo.

A oscilação deixa de ser surpresa quando o prazo foi escolhido primeiro

Renda fixa significa que a regra de remuneração é conhecida ou vinculada a uma referência. Não significa que o preço de venda permanecerá fixo todos os dias.

A marcação a mercado torna visível quanto o título vale nas condições atuais. Quando as taxas sobem, o preço tende a cair; quando as taxas caem, ele pode subir. Quanto maior o prazo e a sensibilidade do papel, maior tende a ser o movimento.

Para quem pode manter o título até o vencimento, uma oscilação causada apenas pelos juros pode não exigir nenhuma ação. Para quem precisa vender antes, ela pode mudar significativamente o resultado.

Por isso, a pergunta mais importante não é “qual título está pagando a maior taxa?”. É “em que data vou precisar desse dinheiro e o que acontece se eu tiver de vendê-lo antes?”.

Perguntas frequentes sobre marcação a mercado

Marcação a mercado é uma taxa cobrada do investidor?

Não. É um procedimento de atualização do preço conforme as condições atuais do mercado. Ela mostra quanto o título poderia valer em uma negociação naquele momento.

Por que o preço cai quando os juros sobem?

Porque novos títulos passam a oferecer rentabilidade maior. Para que um título antigo com pagamentos menos atraentes continue competitivo, seu preço de negociação precisa cair.

Se o investimento aparece negativo, eu já perdi dinheiro?

Existe uma perda não realizada em relação ao preço atual. Ela será incorporada à operação se houver venda. Antes de decidir, verifique se a queda decorre de juros, crédito, liquidez ou outro fator.

Quem mantém o Tesouro Direto até o vencimento sofre com a marcação?

O preço continuará oscilando no extrato, mas não será utilizado para uma venda se o título for mantido até o vencimento. O resultado seguirá as condições contratadas, descontados impostos e custos.

O Tesouro IPCA+ pode ficar negativo?

Sim. A proteção contra a inflação vale para a remuneração até o vencimento, enquanto o preço antes dessa data responde às taxas reais do mercado. Títulos longos podem oscilar bastante.

O Tesouro Selic também oscila?

Pode apresentar pequenas variações, embora sua sensibilidade normalmente seja menor que a de títulos Prefixados ou IPCA+ longos.

Liquidez diária impede perda na venda?

Não. Liquidez significa que existe possibilidade de converter o investimento em dinheiro. O valor recebido dependerá do preço de mercado no momento da venda.

Marcação na curva e marcação a mercado são a mesma coisa?

Não. A marcação na curva projeta a evolução usando a taxa contratada. A marcação a mercado estima quanto o título vale nas condições atuais de negociação.

Vale a pena comprar um título longo para ganhar com a queda dos juros?

Essa é uma estratégia de risco. Se as taxas caírem, o título pode se valorizar; se subirem, pode sofrer perdas relevantes. A decisão deve considerar prazo, objetivo e tolerância à oscilação.